A carta que nunca tinha escrito.

27-05-2019

A memória trai-nos.

Existem sempre várias versões sobre o término de relações: traições, mentiras, omissões, boatos. Acho que connosco foi diferente. Terminamos quando concordamos que muito mais era aquilo que nos separava do que aquilo que realmente nos unia. Ninguém agiu mal. Ninguém maltratou ninguém. Houve um dia em que não quiseste mais estar ali. Preferiste a tua própria companhia do que a minha. E não há mal nenhum nisso. Felizmente que não demos seguimento à história "só porque sim". Só porque o mais fácil seria ficar. Não há nada mais tóxico do que insistir em algo que não tem futuro, quando ambos já o sabem.

Lembro-me da primeira vez que te beijei e lembro-me do último abraço que demos. E ainda bem que demos. Ainda bem que houve uma última oportunidade para isso. "Nunca te vou esquecer, Ani". Calei-me e sorri. Hoje posso retribuir a mesma frase porque tenho a certeza disso. Pelo que vivemos. Pelo que fomos. Pelo que crescemos juntos.

Não foste a primeira pessoa a partir-me o coração. Mas foste a única que conseguiu tirar-me o chão, o norte. E demorou tanto tempo a encontrar-me que ainda hoje não sei se me encontrei a 100%. Também sei que não fui a única a partir-te o coração, mas sei que também te deixei sem estofo para continuar. E no meio de tantas quebras, falhas, ilusões e desilusões, nasceram duas pessoas novas. Completamente diferentes daquelas que se conheceram há anos atrás. As mesmas que se apaixonaram.

Hoje, depois de tanto tempo sem sabermos um do outro, posso-te dizer que a vida ficou mais complexa desde o dia em que nos despedimos. Sinto-me muitas vezes numa corda bamba interior. Incompleta, diria. Mas consciente que demos o melhor passo. Sou bastante metódica e organizada. Preciso de uma constante na minha vida. E isso, é o que sinto mais falta. Algo que fique e que dure. Aquela merda que nos falam.

Nunca fui pessoa de odiar um ex-namorado ou desejar-lhe mal só porque algo não correu bem. Ainda que os nossos caminhos estejam completamente paralelos sem nunca se unirem e, ainda que tenhamos quebrado qualquer tipo de elo entre nós, permitiste-me perceber que nunca amamos demasiado alguém. Que há sempre mais amor para dar. E a cada vez que batemos com a cabeça, a cada vez que erramos, podemos amar sempre mais e melhor.

A primeira vez que te foste, chorei agarrada a ti por perceber que não havia nada a fazer senão entender que tudo tem um fim, ainda que não o queiramos. Da segunda, antes de saíres do carro, os teus olhos encheram-se de lágrimas e ambos soubemos que aquele momento não se repetiria. Sabíamos que não nos íamos voltar a ver e que aqueles três dias não tiveram outro sabor que não o da despedida.

Não te amo. Mas amo a imagem que tenho de nós os dois e da segurança e estabilidade que proporcionavas à minha vida. Nunca mudaria o dia em que te conheci. Nem o que te perdi. Todos os dias da nossa história foram necessários para entender que podes amar desmedidamente alguém, que essa mesma pessoa te pode partir o coração em mil e que ainda assim tu vais querer sempre o seu bem. Entendes que vão seguir os dois caminhos completamente diferentes e que, mais tarde, num virar de rua qualquer, estará lá um novo alguém para nos amparar e voltar a juntar todas as peças que juntos partimos.

Nesse dia seremos só memórias.
Memórias que, no seu tempo e espaço, serão sempre nossas.

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Ana Ramalho
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